5# GERAL 11.12.13

     5#1 DEMOGRAFIA - ORIENTE-SE, CENSO
     5#2 AUTOMVEIS - A REINVENO DOS ELTRICOS
     5#3 TECNOLOGIA  O CREBRO VAI  URNA
     5#4 SADE  NO EXISTE GORDINHO SAUDVEL
     5#5 CINCIA  O SEGREDO DO TERROIR
     5#6 CINCIA  ERA S PROMESSA
     5#7 VIDA DIGITAL  POR UMA WEB SEM CENSURA
     5#8 URBANISMO  A SOLUO NO QUE NO SE V
     5#9 MEMRIA  MANDELA  O HERI INCOMUM
     5#10 GENTE
     5#11 IDIAS  ONDE COPIAR  BONITO
     5#12 EDUCAO  EST FALTANDO FLEGO

5#1 DEMOGRAFIA - ORIENTE-SE, CENSO
Com dois anos de atraso, o IBGE admite: o levantamento de 2010 se enganou ao sinalizar um aumento de asiticos em milhares de municpios onde eles nunca estiveram.
CECLIA RITTO

     Ao ser divulgado, h dois anos, o Censo 2010, com toda a sua riqueza de informaes sobre a populao do Brasil, trazia um dado numericamente pequeno, mas demograficamente importante. Segundo o recenseamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica, o IBGE, o contingente de asiticos crescera 174% entre 2000 e 2010, totalizando 1,3 milho de pessoas, ou 1,09% da   populao do pas. Mais curioso ainda: boa parte do ganho se dera no Nordeste, especialmente no Piau. O estado, fora da rota dos fluxos migratrios, de uma hora para outra se transformou, proporcionalmente, no campeo nacional de asiticos. No mundo da demografia, a novidade foi alvo de muito muxoxo e descrena desde o incio. Nas ltimas duas semanas, VEJA cruzou os dados populacionais com as taxas de imigrao e descobriu que o Brasil recebeu menos de 75.000 imigrantes japoneses, chineses e coreanos na ltima dcada  e, ao que tudo indica, nenhum foi para o Piau. Premido pelos fatos, o IBGE admitiu que parece ter havido um engano. 
     Basta conversar com pessoas das cidades envolvidas para saber que olhinhos puxados so raridade l, se  que existem. Prefeita de Ribeira do Piau, cidade com 4263 moradores a 380 quilmetros de Teresina, Irene Mendes ri ao ser informada de que, segundo o censo, 8% da populao de sua cidade  "amarela". "No tem esse povo aqui no, moa", afirma. O municpio de Curral Novo do Piau foi, nos resultados do Censo, o que mais viu inflar a sua populao oriental: 556 indivduos  551 a mais que em 2000  que ningum nunca viu. "Amarelo, aqui, s se for um branco queimado", brinca Francisco Lima, secretrio de Planejamento. Embora a inflao de asiticos se destaque no Piau, o fenmeno se repetiu em outros lugares. Em Oriznia, na Zona da Mata mineira, o nmero saltou de zero para 10% dos habitantes. "No tinha conhecimento desse aumento. Pelo que me lembro, h duas famlias de origem japonesa na zona rural e s", diz o prefeito Ederaldo Almeida. 
     Num primeiro momento, o IBGE no se manifestou sobre os dados surpreendentes. Alguns especialistas chegaram a atribuir o aumento aos ndices mais altos de desenvolvimento da regio e  volta dos decassguis que foram tentar a sorte no Japo. Agora, pressionado, o instituto rompeu o silncio. "Percebemos a divergncia desde que comeamos a finalizar os resultados. Dentro de uma operao da envergadura do Censo, pode acontecer esse tipo de situao", argumenta Marcia Quintslr, diretora de pesquisas do IBGE. "Estamos investigando como essa distoro foi possvel e de que forma corrigi-la". A tese de Marcia  que a populao recenseada no teria entendido a definio "amarelo" no quesito relativo a raa. Especialistas rebatem dizendo que outros levantamentos, como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios, do prprio IBGE, no registram tal confuso. 
     Demgrafos independentes atribuem o erro aos prprios recenseadores  2010 foi o ano da troca de formulrios de papel por aparelhos eletrnicos que boa parte dos 191.000 pesquisadores nunca havia usado antes. Outros resultados surpreendentes no mesmo Censo, como o salto do nmero de catlicos apostlicos brasileiros (dissidncia que Roma no reconhece), foram percebidos e corrigidos antes da divulgao  dos dados. O instituto chegou a informar sobre a discrepncia, sem revelar suas causas. Sabe-se que, provavelmente, a culpa, de novo, foi da digitao no aparelhinho usado na pesquisa: "catlico apostlico brasileiro" vinha logo antes de "catlico apostlico romano". No caso dos orientais, o erro e a demora do IBGE em admiti-lo podem, segundo os demgrafos, afetar a credibilidade do prprio Censo, um levantamento essencial para a formulao de planejamentos e polticas nacionais. "Se um dado to flagrantemente incorreto passa despercebido, como garantir que no h outros problemas?", questiona Carlos Pereira, do Instituto de Matemtica e Estatstica da USP. O IBGE diz que a informao correta s deve aparecer quando houver um novo Censo, em 2015. Este, espera-se, dotado de um dispositivo que acenda o alarme  amarelo, no mnimo  diante de resultados claramente estapafrdios. 

SINAL AMARELO
Abaixo, as cidades onde o Censo mais inflou o nmero de orientais. A comparao entre os levantamentos de 2000 e 2010 d uma boa medida disso

Curral Novo do Piau (PI)
2000: 0,12%
2010: 11,42%

Oriznia (MG)
2000: 0%
2010: 10,76%

Antnio Almeida (PI)
2000: 0,11%
2010: 9,84%
 
Ribeira do Piau (PI)
2000: 0%
2010: 8,33%

Alfredo Marcondes (SP)
2000: 1,79%
2010: 9,89%

Fonte: IBGE


5#2 AUTOMVEIS - A REINVENO DOS ELTRICOS
Com as restries  venda de veculos poluentes e o incentivo de subsdios, os fabricantes desenvolvem uma nova gerao de modelos 100% movidos a eletricidade.
BIANCA ALVARENGA

     Nos primeiros anos da indstria automobilstica, quando o petrleo no era abundante, boa parte dos modelos era movida a eletricidade, utilizando baterias de nquel e chumbo. Dos 4000 veculos de passeio que circulavam na cidade de Nova York em 1903, 20% eram eltricos. Com o tempo, ficou evidente a supremacia dos motores a combusto. A principal barreira tecnolgica sempre foi fabricar baterias capazes de dar aos carros autonomia para viagens mais longas. A reinveno do carro eltrico ganhou mpeto, nos ltimos anos, em decorrncia da presso internacional pela reduo das emisses de gs carbnico. Atualmente, todas as grandes montadoras possuem ao menos um modelo hbrido ou 100% eltrico. 
     Mesmo contando com subsdios em diversos pases, esses carros ainda no se popularizaram. Os hbridos so responsveis por cerca de 2% das vendas globais, e a parcela dos eltricos  de um nfimo 0,02% do mercado. O bom-mocismo ambiental no tem sido suficiente para alavancar o interesse dos compradores. Alm de os eltricos apresentarem preo at 30% acima do cobrado nos modelos similares a combusto, suas baterias (que respondem  por mais de um tero do valor final do veculo) dificilmente permitem viagens superiores a 150 quilmetros. O abastecimento em tomadas convencionais pode durar dez horas, e os pontos especiais de reabastecimento, nos quais se pode fazer uma carga rpida, ainda so raros. Resultado: modelos encalhados nas concessionrias, a despeito dos descontos, e vendas abaixo das estimadas inicialmente. 
     Seriam os sinais de uma segunda derrocada dos eltricos? A resposta  no, segundo os especialistas. Em alguns mercados, esses carros conquistaram adeptos fiis. Na Noruega, o lder de vendas entre os veculos de passeio  o Leaf, da Nissan. O pas possui a maior frota de veculos eltricos per capita do mundo. L eles representam 10% das novas vendas, graas no apenas ao apelo ambiental, mas aos subsdios generosos do governo. Os eltricos podem trafegar em faixas exclusivas para fugir do trnsito, so isentos das taxas de licenciamento, no pagam pedgio e estacionam de graa. Na Califrnia, os subsdios tambm contribuem para as vendas. Existem  disposio populares como o Fiat 500E eltrico. O campeo de vendas, no entanto,  o esportivo Tesla, o favorito de celebridades californianas e empreendedores do Vale do Silcio. A verso de entrada no sai por menos de 60.000 dlares, e existem filas de espera pelo carro criado por Elon Musk, deixando para trs os modelos da Porsche, Jaguar e Land Rover. 
     At 2025, na Califrnia, em Nova York e em outros seis estados americanos 15% das vendas devem ser de carros no poluentes. So exigncias desse tipo que empurraram as montadoras a se lanar em uma corrida tecnolgica para aprimorar os eltricos e torn-los viveis comercialmente. A Volkswagen anunciou as verses eltricas do Golf e do compacto Up!, previstas para 2014. O projeto mais ambicioso  de outra alem, a BMW. A marca investiu 400 milhes de euros na construo de  uma fbrica totalmente sustentvel em Leipzig, no leste da Alemanha, para produzir exclusivamente a linha i, de carros 100% eltricos. O primeiro a sair da linha de montagem  o i3, que chegar s lojas europeias ainda neste ano. Em 2014, o modelo ser lanado nos Estados Unidos e tambm no Brasil. Se o cronograma se confirmar, ser o primeiro 100% eltrico a ser vendido no mercado brasileiro. Para ser mais leve, o carro tem sua estrutura de fibra de carbono. Assim, o i3 ficou 20% mais leve que o Leaf, e seu motor  40% mais potente. 
     No Brasil, pas que possui no etanol uma alternativa excelente aos combustveis fsseis, os eltricos no so tratados como prioritrios pelo governo. Para os fabricantes e tambm na opinio de especialistas, no entanto, essa estratgia  um erro, porque pode deixar o pas atrasado no desenvolvimento de uma tecnologia que, no futuro, poder ganhar importncia. "A tendncia  de uma disseminao de alternativas aos combustveis derivados do petrleo e tambm ao etanol", afirma Roberto Marx, professor da USP e coordenador do setor de pesquisa sobre carros eltricos e hbridos da Agenda Tecnolgica Setorial, um grupo de trabalho do governo. Considerando-se todos os impostos, o Leaf, que custa 28.000 dlares l fora, chegaria ao Brasil por at 100.000 reais. J o i3, da BMW, que ser lanado por 35.000 euros na Alemanha, custar acima de 200.000 reais aqui. Representantes do setor afirmam que o governo dever anunciar, em breve, se conceder algum tipo de benefcio aos hbridos e eltricos. 


5#3 TECNOLOGIA  O CREBRO VAI  URNA
Pela primeira vez em uma campanha presidencial, um candidato utilizar a neurocincia para entender como funciona a cabea do eleitorado brasileiro.
KALLEO COURA, DO RECIFE

     Em 2010, Eduardo Campos (PSB) buscava se reeleger governador de Pernambuco. Para reforar sua campanha, apostou em uma ferramenta secreta e at ento indita na poltica brasileira. Um laboratrio de neurocincia, montado no Recife pelo cientista poltico Antonio Lavareda, era usado para avaliar as reaes dos eleitores s propagandas de TV de Campos e do oposicionista Jarbas Vasconcelos (PMDB). "Nossa principal descoberta foi que o discurso recheado de frases negativas feito pelo segundo candidato era muito ineficaz", disse a VEJA o ingls Duncan Smith, diretor do laboratrio Mindlab International. "De maneira inconsciente, os eleitores identificavam o prprio poltico que fazia os ataques s qualidades negativas que ele atribua ao adversrio." Campos passou a explorar esse resultado, fazendo discursos propositivos e acusando o rival de s saber criticar. Jarbas, que tinha 29% nas  pesquisas no incio da campanha, conseguiu apenas 14,05% dos votos. Campos foi reeleito com 82,8% dos votos. No ano que vem, pela primeira vez a neurocincia ser aplicada em uma campanha nacional. Por iniciativa do prprio Campos, que disputar a Presidncia pelo PSB. 
     Nas ltimas duas dcadas, o conhecimento adquirido sobre o funcionamento do crebro superou tudo o que se sabia at ento. E o uso da neurocincia aplicada ao consumo e  poltica se tornou uma ferramenta na batalha pela mente dos consumidores e eleitores. Um estudo feito pela Universidade de Michigan mostrou que questes ideolgicas respondem por apenas 3,5% das definies dos votos nos Estados Unidos. A maioria vota com base na emoo, sem levar em conta as posies polticas dos partidos. "No somos to racionais como gostamos de nos imaginar. Boa parte das decises que pensamos ser racionais  tomada de maneira inconsciente", afirma Pedro Calabrez, professor de neurocincia aplicada da ESPM. Uma pesquisa da Universidade de Leicester, na Inglaterra, ajuda a dar a dimenso desse fenmeno. Por duas semanas, em dias alternados, eram tocadas msicas tradicionais alems ou francesas em uma loja de vinhos. Nos dias em que havia msica francesa, vinhos franceses representaram 77% das vendas. Nos outros dias, 73% dos produtos vendidos eram alemes. Para comprovar a inconscincia do consumo, s um dos 44 clientes que responderam a um questionrio disse que havia feito a escolha por causa da msica. 
     No Brasil, dois laboratrios e duas consultorias se dedicam ao neuromarketing. Nas prximas eleies, o Neurolab, no Recife, a A|F Inteligncia, em So Paulo, e a Forebrain, no Rio de Janeiro, devem trabalhar em campanhas polticas. Entre os aparelhos que sero usados pelo Neurolab na campanha presidencial de Campos h uma touca de eletroencefalografia, capaz de captar as ondas cerebrais e, por meio de algoritmos, identificar tanto a ateno quanto a emoo diante de um discurso. Alm disso, so utilizados rastreadores de movimento ocular para determinar quais pontos especficos captaram a ateno do pesquisado. E eletrodos que medem o nvel de condutividade eltrica da pele, que est relacionada ao impacto emocional causado pelo discurso. "As tcnicas da neurocincia no substituem as pesquisas qualitativas tradicionais, mas, com elas, conseguimos captar ndices emocionais, de ateno e de memorizao que vo alm da conscincia e que seriam impossveis de ser verbalizados", diz Marcos Antunes, scio da A|F Inteligncia. 
     H dois anos, o laboratrio de neuromarketing da Fundao Getulio Vargas foi fundamental para que uma campanha da prefeitura de So Paulo atingisse o pblico-alvo. A prefeitura pretendia convencer os paulistanos a respeitar a faixa de pedestres. Nos testes das primeiras peas, feitos com rastreadores de movimento ocular, os pesquisadores perceberam que ningum sequer notava a faixa nas imagens. Como as pessoas tendem a fixar o olhar em um rosto, a alternativa encontrada foi personificar a faixa, com a ajuda de um ator fantasiado. Graas a essa soluo, a campanha conseguiu reduzir o nmero de atropelamentos na faixa em 61%. "Estamos longe de entender completamente o crebro humano, mas com as tcnicas do neuromarketing  possvel desenvolver uma comunicao muito mais eficaz para candidatos, empresas ou instituies pblicas", diz Carlos Augusto Costa, coordenador do laboratrio da FGV. A corrida para conquistar o inconsciente dos eleitores est apenas comeando. 


5#4 SADE  NO EXISTE GORDINHO SAUDVEL
A maior compilao de estudos j feita sobre os riscos do excesso de peso, com base em mais de 60.000 pacientes, revela a incompatibilidade entre um corpo cheinho e o bom funcionamento do organismo.
NATALIA CUMINALE

     No faz muito tempo a medicina decretou a alforria dos gordos. A partir dos anos 2000, comearam a despontar estudos mostrando que os quilos extras no ofereciam perigo algum se os exames clnicos do paciente (presso arterial, colesterol, glicemia e circunferncia abdominal, entre outros) estivessem dentro da faixa de normalidade. Chegou-se a sugerir, inclusive, que uma gordurinha aqui, outra ali poderiam at fazer bem. Dessa convico nasceu o conceito de gordo saudvel. A alegria, no entanto, durou pouco. Na semana passada, um trabalho publicado na revista cientfica Annals of Internal Medicine, do Colgio Americano de Mdicos, decretou: ningum acima do peso pode ser considerado saudvel. Ningum. Coordenados pela endocrinologista brasileira Caroline Kaercher Kramer, os pesquisadores do Instituto de Pesquisa Lunenfeld-Tanenbaum, do Hospital Mount Sinai, no Canad, fizeram a mais ampla compilao de trabalhos j realizada sobre o assunto, envolvendo, no total, 61.386 homens e mulheres. Segundo o levantamento, os obesos tidos como saudveis apresentam uma probabilidade 24% maior de morrer de infarto, derrame ou qualquer outra causa nos prximos dez anos, quando comparados aos magros na mesma situao. "Mesmo que os exames dessas pessoas se apresentem normais, o excesso de peso , por si s, um fator de risco cardiovascular", disse a VEJA Caroline. 
     As alteraes nas avaliaes dos mais pesados so pequenas em relao aos ndices apresentados por quem est no peso ideal (veja o quadro na pgina ao lado). "O problema  que, combinadas, essas sutis diferenas transformam-se em uma bomba-relgio", diz o cardiologista Raul Dias dos Santos, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo. "As principais causas de complicaes vm das alteraes na presso sistlica e no HDL, o colesterol bom." Entre os magros, por exemplo, a presso sistlica (mxima) foi de, em mdia, 120 milmetros de mercrio, a ideal. Os gordinhos apresentaram 3 pontos a mais nessa medio. Os obesos, 6. Aparentemente,  pouco. Mas no. A cada 1 milmetro de mercrio a mais na presso sistlica, o risco cardiovascular aumenta 1%. No caso do HDL, a reduo de 1 miligrama do colesterol bom por decilitro de sangue representa um acrscimo de 1,5% na probabilidade de problemas no futuro. Levando-se em considerao os dados colhidos entre os pacientes avaliados pela pesquisa canadense, isso significa uma ameaa 10,5% maior entre os obesos tidos como saudveis. E 4,5% no grupo do sobrepeso. 
     No processo de ganho de peso, a expanso do tecido adiposo requer um suprimento vascular maior, de modo a garantir o aporte sanguneo para a regio  e, consequentemente, sua oxigenao. Em geral, no entanto, esse processo ocorre de maneira desordenada. Nem todas as clulas adiposas so nutridas de forma homognea, com a quantidade de oxignio necessria. Agora maiores e em maior nmero, os adipcitos sofrem invariavelmente uma falta de oxigenao. "A partir desse momento, o organismo todo fica comprometido", diz o endocrinologista Freddy Eliaschewitz, diretor do Centro de Pesquisas Clnicas (CPCIin), de So Paulo. Elevam-se o nvel de colesterol e o de triglicrides, as clulas deixam de responder adequadamente  insulina, as funes hormonais se alteram e h uma produo anormal de substncias inflamatrias. Conforme o peso aumenta, h um incremento da protena C-reativa, um indicador de inflamao. Os homens obesos tm o dobro de probabilidade de apresentar uma quantidade de C-reativa elevada. Entre as mulheres, esse perigo  seis vezes maior.  o cenrio ideal para o desenvolvimento de doenas graves  alm das afeces cardiovasculares, diabetes, alguns tipos de cncer, apneia do sono e osteoartrite, entre outras (veja o quadro ao lado). 
     Cerca de 20% dos obesos e metade dos indivduos com sobrepeso estavam enquadrados na categoria dos pesados tidos como saudveis. A cincia ainda no desvendou por completo os mecanismos por detrs desse fenmeno, aparentemente positivo. "Uma das hipteses  que essas pessoas apresentem um padro diferente de distribuio da gordura corporal", diz o endocrinologista Alfredo Halpern, da Universidade de So Paulo. "Elas apresentam uma concentrao menor da mais perigosa gordura, a que se acumula no abdmen, o que faz com que o peso, apesar de alto, seja mais bem distribudo." Nos gordos chamados saudveis, as clulas adiposas, em vez de crescerem, manteriam praticamente o mesmo tamanho, apenas se multiplicando. "E  muito mais fcil alimentar uma grande quantidade de clulas pequenas do que um monte de clulas gigantes", completa o mdico Eliaschewitz. Estaria a uma das justificativas para o fato de que os gordos considerados saudveis demoram pelo menos uma dcada para apresentar os primeiros sintomas de problemas cardiovasculares. 
     Durante muito tempo na histria da humanidade, a obesidade era vista como um sinal de sade e prosperidade. Para as mulheres, as formas arredondadas estavam associadas a beleza e fertilidade. Apesar disso, no sculo V antes de Cristo, o grego Hipcrates, considerado o pai da medicina, j alertava para os perigos do excesso de peso, ao associ-lo com o aumento no risco de morte prematura. Foi somente a partir dos anos 1960 que o perigo dos quilos extras passou a ser de fato estudado  e combatido. A pesquisa canadense refora o alerta sobre os riscos do acmulo de tecido adiposo  ainda que pequeno e na ausncia de alteraes nas medies de  presso, colesterol ou glicemia.  Diz a endocrinologista Caroline Kramer: "Todo excesso de peso  deve ser combatido. As pessoas no devem esperar os problemas aparecerem".  

A MATEMTICA DO RISCO
O estudo do Instituto de Pesquisa Lunenfeld-Tanenbaum, do Hospital Mount Sinai, no Canad, derruba a tese de que  possvel ser gordo e saudvel. At ento, acreditava-se que os quilos extras no ofereciam nenhum perigo se os exames clnicos do paciente (presso, colesterol, glicemia e circunferncia abdominal, entre outros) apresentassem resultados dentro da faixa de normalidade  so as pessoas chamadas no jargo mdico de "metabolicamente saudveis". O trabalho canadense comparou os ndices metablicos de pacientes com sobrepeso e obesidade, tidos como saudveis, com os de outros no peso ideal, sem alteraes clnicas. O que se viu  que o acmulo de gordura  sempre uma ameaa  sade. A pedido de VEJA, a endocrinologista Caroline Kaercher Kramer, autora da pesquisa, e o cardiologista Raul Dias dos Santos calcularam o risco cardiovascular escondido em exames de resultados aparentemente normais. (*As taxas de risco no devem ser somadas, pois cada uma delas foi obtida com base em pesquisas diferentes) 

COMO CALCULAR O IMC
(ndice de massa corporal)
IMC = P dividido por A2
P = peso (em quilos)
A = altura (em metro)

Peso normal IMC entre 18,5 e 25
Sobrepeso IMC entre 25 e 30
Obesidade IMC acima de 30

O perfil dos pacientes avaliados na pesquisa, conforme a mdia dos resultados de seus exames clnicos.

Circunferncia abdominal (em centmetros)
MAGROS SAUDVEIS 81
SOBREPESO TIDO COMO SAUDVEL 91 (30%)
OBESIDADE TIDA COMO SAUDVEL 105 (72%)

HDL (em mg/dl)
MAGROS SAUDVEIS 58
SOBREPESO TIDO COMO SAUDVEL 55 (4,5%)
OBESIDADE TIDA COMO SAUDVEL 511 (10,5%)

LDL (em mg/dl)
MAGROS SAUDVEIS 138
SOBREPESO TIDO COMO SAUDVEL 145 (7,4%)
OBESIDADE TIDA COMO SAUDVEL 147 (8,6%)

PRESSO ARTERIAL SISTLICA (Presso sistlica  a presso mxima. Mede o fora que o sangue imprime sobre a parede das artrias)
MAGROS SAUDVEIS 120
SOBREPESO TIDO COMO SAUDVEL 123 (3%)
OBESIDADE TIDA COMO SAUDVEL 126 (6%)

PERIGO INVISVEL
As alteraes metablicas vm acompanhadas de outros sintomas silenciosos nas pessoas com sobrepeso e obesidade saudvel. Esses fatores elevam ainda mais o risco de desenvolver doena cardiovascular subclnica. Veja quais so:

AUMENTO DO RISCO
INFARTO
Elevao da protena C-reativa 40%
Aumento da espessura da cartida 15%
Concentrao de clcio nas coronrias 900%

DERRAME
Elevao da protena C-reativa 27%
Aumento da espessura da cartida 18%
Concentrao de clcio nas coronrias --

MAIS QUILOS, MAIS DOENAS
O excesso de peso est relacionado a outras doenas, alm das cardiovasculares. O acmulo de tecido adiposo, sobretudo na regio abdominal, transforma-se em uma usina de compostos qumicos extremamente danosos ao organismo.

Diabetes
O que acontece -  Com o excesso de gordura corporal, h uma reduo na produo do hormnio adiponectina, envolvido diretamente na ao da insulina. Por outro lado, h um incremento na produo de citocinas, substncias inflamatrias que, em abundncia, aumentam a resistncia  insulina
Consequncia - Quando as clulas do pncreas no conseguem mais compensar o desequilbrio provocado pelo ganho de peso, as taxas de glicose se elevam e ocorre o diabetes

Cncer
O que acontece -  Os quilos em excesso elevam a produo de hormnios e mediadores qumicos associados ao surgimento de vrios tipos de cncer. Nos tumores de mama, por exemplo, o acmulo de gordura corporal faz aumentar a produo do hormnio estrgeno, combustvel para as clulas cancerosas
Consequncia - Estima-se que 14% das mortes por cncer em homens e 20% em mulheres ocorram devido ao sobrepeso e  obesidade

Apneia do sono
O que acontece - Em demasia, a gordura leva ao estreitamento ou at  ocluso da passagem de ar pelas vias areas superiores. Nessas condies, durante o sono, o paciente fica sem respirar por alguns segundos, o que provoca perodos de queda na oxigenao
Consequncia - Est relacionada  hipertenso arterial, a arritmias cardacas e ao aumento da mortalidade

Osteoartrite
O que acontece - O excesso de peso sobrecarrega as articulaes, levando  degenerao das cartilagens
Consequncia - A obesidade aumenta seis vezes o risco de osteoartrite do joelho, por exemplo

Fontes: Caroline Kaercher Kramer, endocrinologista do instituto de Pesquisa Lunenfeld-Tanenbaum, do Hospital Mount Sinai, no Canad, e autora do estudo; e Freddy Eliaschewitz, diretor do Centro de Pesquisas Clnicas (CPCIin), de So Paulo

A GENTICA DO APETITE
     Os hbitos alimentares de crianas podem ser influenciados por uma mutao gentica.  o que sugere um estudo publicado recentemente na revista Appetite. Os pesquisadores da Universidade McGill, no Canad, descobriram que uma variao no gene DRD4 faz com que os pequenos, especialmente as meninas, optem por alimentos mais calricos quando comparados a quem no apresenta tal mutao gentica. Foram acompanhadas 150 crianas, de 4 anos. Levadas a uma sala com uma mesa repleta de alimentos saudveis e no saudveis, elas tinham de escolher entre bolinhos de chocolate, sorvetes, croissants e cereais integrais. Em seguida, as mes respondiam a um questionrio sobre os hbitos alimentares de seus filhos. "Em nossa pesquisa, identificamos um fator de risco para a obesidade no futuro", diz a brasileira Patrcia Silveira, pediatra, neurocientista e autora do estudo. O gene DRD4 atua na regulao da dopamina, o neurotransmissor relacionado  sensao de recompensa. Em crianas com a mutao, a dopamina no funciona adequadamente e, para compensar essa deficincia, elas optam por consumir mais alimentos calricos. 
     Sabe-se que a escolha de um alimento por uma criana depende de vrios fatores, desde os ambientais at os genticos. A influncia materna comea muito antes do nascimento do beb. Estudos mostraram que, durante a gestao, o feto consegue sentir o gosto do que  consumido pela me. Depois do nascimento, o sabor dos alimentos continua a ser passado de me para filho pela amamentao. "Os bons hbitos  mesa devem ser estimulados sempre e, quanto mais cedo a criana for exposta a alimentos saudveis, melhor", diz Patrcia. "Isso porque, durante a infncia, o crebro da criana aceita novos sabores com mais facilidade." Por mais que os genes exeram influncia, o papel dos pais  ainda mais decisivo. Estima-se que 15% dos meninos com sobrepeso e 12% das meninas sero obesos no futuro. O pior: a obesidade infantil pode antecipar entre dez e vinte anos a manifestao de doenas cardiovasculares. 


5#5 CINCIA  O SEGREDO DO TERROIR
Cientistas americanos descobrem que fungos e bactrias podem ser os ingredientes especiais dos melhores vinhos.
VICTOR CAPUTO

     Quando enlogos provam um vinho excepcional, alm de dizer algo como " encorpado, os taninos so acentuados e o aroma e o gosto so de frutas vermelhas", costumam elogiar o terroir de origem da uva. Terroir  "local", em francs, mas, para apreciadores de vinho, significa muito mais  embora seja uma definio hoje um tanto desacreditada. O terroir indica que o lugar onde as uvas foram plantadas  dotado de caractersticas ideais para a produo de garrafas de primeira linha. O solo tem de ser rochoso e pobre em nutrientes para o cultivo das parreiras e deve estar num clima com pouca incidncia de chuvas e submetido a temperaturas extremas, que variam muito durante o dia (quente pela manh e frio  noite, por exemplo). S que, para enlogos, isso ainda no explica tudo. Haveria um je ne sais quoi (um no sei qu, em francs) que confere a regies como Borgonha e Bordeaux, na Frana, ou Rioja, na Espanha, condies especialssimas para serem parasos dos vinhos. 
     Cientistas da renomada Universidade da Califrnia, nos Estados Unidos, parecem ter matado a charada  e, no caminho, tiraram um pouco do encanto romntico dos vinhos. Eles descobriram que esse je ne sais quoi pode ser composto de simplrias bactrias e fungos que se alojam na casca da uva. Parece ter surgido, portanto, uma prova microscpica de que o terroir no  inveno dos fabricantes de vinhos para valorizar seus produtos. 
     Os pesquisadores americanos colheram amostras de mosto  o lquido proveniente da uva amassada  da produo de 273 vincolas de quatro terroirs californianos. Em laboratrio, decodificaram os DNAs presentes nas frutas e compararam cada um que encontraram com um banco de dados de cdigos genticos de bactrias e fungos. O resultado foi a descoberta da presena de 215 espcies de bactrias e 350 de fungos nos vinhos analisados. At a, nenhuma surpresa. Esses microrganismos esto presentes em todos os cantos da natureza  no corpo humano, inclusive  e sobrevivem aos processos qumicos mais rduos. No caso dos vinhos, o fungo Saccharomyces  o princpio ativo da fermentao que acrescenta lcool  bebida, e os organismos permanecem nas garrafas mesmo depois do engarrafamento. O espanto foi notar que h um leque nico e especfico de bactrias e fungos para cada terroir e que eles influenciam na composio qumica da bebida a ponto de alterar seu sabor e odor. 
     Em raras situaes, esses organismos so nocivos para a plantao. Em 1996, por exemplo, vincolas da Califrnia sofreram com a infestao de Xylella fastidiosa, bactria que seca as uvas, tornando-as imprprias para a colheita, o que causou prejuzo de milhes de dlares. Isso explica por que os malefcios de fungos e bactrias so estudados por enlogos ao menos desde o sculo XVI. A nova descoberta dos cientistas californianos revela que esses antigos viles das safras so, na verdade, aliados dos produtores, por proporcionarem caractersticas nicas aos vinhos de um terroir. Disse a VEJA o bioqumico David Mills, lder do estudo: "Enlogos e sommeliers ficaram apreensivos com a descoberta, pois isso esvazia a mstica que criam em torno do terroir e, por consequncia, do vinho". O termo terroir comeou a ser adotado por donos de vincolas no sculo XII. Foi criao de monges cistercienses da Abadia de Cister, na Borgonha, que estudavam o porqu de vinhos produzidos com as mesmas uvas, mas em reas diferentes, terem gosto e aroma distintos. Em suas pesquisas, desenharam um mapa que dividiu a Franca de acordo com seus terroirs. O termo foi depois exportado. 
     Os sommeliers mais conservadores defendem a tese de que esses territrios s podem ser encontrados na Europa (ou Velho Mundo, como gostam de dizer). Afirmou a francesa Denise Capbern Gasqueton, a falecida dona da vincola Calon-Sgur, uma das mais renomadas de Bordeaux, em 2003: "timos vinhos so produzidos no Chile. Mas falta terroir a eles, e o terroir  o que d um toque a mais". No passa de crena ou de uma boa estratgia comercial. Com os avanos nas pesquisas cientficas, j foram descobertos terroirs de nvel similar nos Estados Unidos, na Argentina, na frica do Sul e no Chile (o Brasil no tem as condies ideais). Agora, sabendo que bactrias tambm agem na equao do sabor do vinho, ser possvel acabar com a cortina de mistrio em torno das antigas vincolas europeias e compar-las com outras seguindo o infalvel mtodo cientfico. Em alguns anos, ao pedir em um restaurante uma garrafa do Napa Valley, na Califrnia, no estranhe se o sommelier falar que ela tem "notas do fungo Cndida zemplinina e de bactria Leuconostocaceae". 

A BACTRIA FAZ O VINHO
Enlogos sabem que quatro fatores influenciam no terroir (regio com condies excepcionais para a produo de vinho): solo, clima, topografia e flora. Faltava, porm, o que chamam de "algo a mais". Cientistas da Califrnia acreditam que esse quinto elemento  composto de bactrias e fungos.
- Foram analisadas 215 espcies de bactrias e 350 de fungos de 273 vincolas de quatro terroirs californianos
- Os fungos e as bactrias se alojam na superfcie das uvas durante o processo de plantao
- Eles continuam vivos mesmo depois que as uvas so colhidas, amassadas e fermentadas, e influenciam na composio qumica de cada vinho (logo, no sabor)
- H diferena de 250% na variedade de microrganismos entre uma e outra vincola e de mais de 10% entre uma safra e outra de garrafas.
Exemplo: o terroir de Sonoma tem grande concentrao da bactria Erwinia, decisiva para conferir sabor aos vinhos brancos da regio californiana - como o sauvignon blanc ao lado -, premiados como os melhores dos Estados Unidos.


5#6 CINCIA  ERA S PROMESSA
O governo americano interdita empresa financiada pelo Google que, por 99 dlares, prometia descobrir a predisposio gentica para contrair 250 doenas.
RAQUEL BEER

     Quando os bilogos Craig Venter e Francis Collins publicaram o primeiro esboo do sequenciamento do DNA humano, em 2000, deu-se um alvoroo. Acreditava-se que nos genes estavam guardados todos, absolutamente todos os segredos de nosso corpo e de nossa mente. Havia algum exagero na euforia. Foi um feito e tanto, mas atribuir infinitas possibilidades ao detalhamento do DNA foi aposta indevida. Nem tudo est geneticamente escrito. 
     H genes que podem se transformar de acordo com hbitos que adotamos. Mas essa condio no tira a relevncia seminal do DNA: as informaes que ele guarda. Ao analisar as variaes genticas de cada indivduo,  possvel descobrir caractersticas fsicas, a ancestralidade (europeia ou africana, por exemplo) e, o mais decisivo, a probabilidade de contrair certas doenas, como cnceres e Parkinson.  justificvel, portanto, a sensao de esperana que se teve quando uma startup americana, a 23andMe, anunciou, em 2007, que faria o que parecia impossvel uma dcada antes: por meio da anlise de gotas de saliva e do pagamento de 99 dlares, ela decodificaria o DNA de qualquer voluntrio, apontando os riscos mais relevantes para a sade. Podamos, pela primeira vez e a um custo bem razovel, vislumbrar nosso futuro e combater males que nos atingiriam. O sonho pode ter desandado. H duas semanas, a agncia americana que regula o consumo de alimentos e remdios, a FDA, interditou a 23andMe aps ter descoberto que o trabalho da empresa no era to profissional quanto prometia ser. 
     A biloga americana Anne Wojcicki fundou a 23andMe com a misso de vender testes genticos diretamente a seus clientes, sem o intermdio de mdicos. A ambiciosa meta atraiu investimentos de mais de 160 milhes de dlares  o bolo principal veio do Google, fundado por seu ex-marido, Sergey Brin. A tcnica da 23andMe  inovadora,  verdade. O cliente deposita a saliva em um tubo de ensaio e o envia, pelo correio,  sede da empresa, no Vale do Silcio californiano. No laboratrio, o material  posto em contato com chips que possuem trechos de DNA sintetizado, com variaes genticas ligadas  tendncia a ter uma srie de doenas. Se algum dos genes do cliente comea a se multiplicar,  porque ele entrou em contato com um similar no DNA artificial. Em resumo: ele tem predisposio para ter a doena relacionada quela variao gentica. Em seis anos, mais de 500.000 pessoas pagaram os 99 dlares pelo exame. 
     A FDA questiona a credibilidade da 23andMe desde 2009. Nesses quatro anos, o governo pediu a Anne que enviasse comprovaes de que os procedimentos so confiveis o suficiente para apontar qual  o destino da sade de cada indivduo que contrata o servio. Como no houve resposta, o trabalho da empresa foi interditado no fim do ms passado. O calcanhar de aquiles da 23andMe  que seu mtodo de anlise detecta apenas 0,1% da estrutura do DNA, e o resultado apresentado leva em conta estudos limitados. Os laboratrios tambm s analisam 1 milho de alteraes possveis nos genes, diante dos 101 milhes que ocorrem em ao menos 1% da populao. A concluso  que no se coletam dados suficientes para indicar a predisposio para ter alguma das 250 doenas estudadas no teste. 
     "Pessoas me procuram desesperadas, dizendo que a 23andMe indicou que viriam a ter Alzheimer ou outra doena, e  difcil convenc-las de que o teste de 99 dlares no  confivel e que no  preciso realizar procedimentos para se prevenir", diz o geneticista David Schlesinger, do Hospital Albert Einstein, de So Paulo. Um dos mtodos de preveno adotados por mulheres que se submeteram ao exame  a mastectomia, na qual se removem as mamas para evitar um cncer  procedimento realizado pela atriz hollywoodiana Angelina Jolie. 
     O golpe na 23andMe no  o fim da revoluo mdica iniciada com a decodificao do DNA. H testes genticos srios, feitos por bilogos e mdicos qualificados, que avaliam todos os genes antes de constatar o risco de contrair uma doena ou outra. Na ltima dcada, o custo dessas anlises caiu de dezenas de milhes para 1000 dlares, e o teste clnico j  realizado em diversos hospitais e centros de pesquisas. Se continuar a cadncia de barateamento,  previsvel que logo esse valor chegue aos 99 dlares. A 23andMe no teve pacincia para esperar  preferiu esconder-se atrs de uma promessa tentadora, mas ilusria. 

FALHAS GENTICAS
A 23andMe prometia prever o futuro da sade das pessoas em um teste baseado numa amostra de saliva e que custa 99 dlares. Mas a agncia de fiscalizao sanitria dos Estados Unidos acabou com a brincadeira ao revelar que  repleto de erros.

NA COLETA E NA ANLISE
O cliente deposita sua saliva em um tubo e o material  encaminhado para um laboratrio onde uma placa equipada com sistemas eletrnicos detecta variaes genticas presentes no DNA da amostra. 
ERRO: o teste avalia somente 0,1% da estrutura do DNA - insuficiente para qualquer prognstico gentico.

NO RESULTADO
O exame indica a predisposio a ter 250 doenas, como Alzheimer e vrios tipos de cncer. So duas as falhas
1 ERRO: o nmero de genes analisados  insuficiente. Exemplo:  considerado menos de um dcimo das alteraes de genes que levam ao diabetes.
2 ERRO:  levam-se em conta estudos genticos feitos somente com indivduos brancos. Ficam de fora variaes tpicas do DNA de outras etnias.


5#7 VIDA DIGITAL  POR UMA WEB SEM CENSURA
Fadi Chehad  cidado de trs pases: do Lbano, onde nasceu, em 1962, do Egito, onde passou a juventude, e dos Estados Unidos, onde vive. A trajetria multinacional combina com seu trabalho. Desde o ano passado, Chehad preside a Icann (Corporao da Internet para Atribuio de Nomes e Nmeros, na sigla em ingls), organizao desvinculada de governos que estabelece e administra as normas tcnicas que regem a internet. Cientista da computao e engenheiro formado na Universidade Stanford, do Vale do Silcio, ele fundou uma srie de startups  uma delas vendida  IBM, empresa da qual foi executivo. E tambm criou, em 1997, a RosettaNet, instituio que promove o compartilhamento de informaes entre empresas do setor. Chehad est agora diante do desafio de definir o futuro da internet em um momento delicado, apimentado por revelaes de espionagem virtual e pela censura da web exercida em vrios pases. Em outubro, ele apresentou  presidente Dilma Rousseff seu projeto de reunir no Brasil representantes de setores da sociedade com o objetivo de redigir uma carta de princpios que deve ser base para o ambiente virtual. O mais fundamental deles: a garantia da liberdade de expresso.
FILIPE VILICIC

REGRAS PARA A INTERNET Est na hora de estabelecer direitos e deveres para os que esto on-line. S assim garantiremos a manuteno de elementos essenciais  web, como a liberdade de expresso e o acesso livre para qualquer indivduo. Isso precisa ser discutido numa reunio com os cinco agentes do mundo virtual: governantes, empreendedores, representantes de instituies da sociedade, acadmicos e especialistas tcnicos. Tenho viajado para conversar com lderes desses setores e propus  presidente Dilma Rousseff que um encontro seja realizado no Rio de Janeiro em abril de 2014. Fico feliz que ela tenha aceitado. O desafio  enorme. Como ordenar uma rede sem fronteiras? Como defender a liberdade de expresso e, ao mesmo tempo, garantir a preservao da privacidade? A resposta  criar um leque de padres a ser seguidos, mas que possam se adequar a cada pas. Ou seja, escrever para a internet uma carta similar  Declarao Universal dos Direitos Humanos." 

CENSURA "Assim como toda inovao que surge na histria, a internet  uma ferramenta que pode ser usada com boas ou com ms intenes. Sempre h o perigo de ela ser manipulada para justificar a criao de algo como o Great Firewall da China, o exrcito de hackers encarregados de censurar o acesso  rede. H alguns meses visitei um ministro de outra nao asitica, cujo nome prefiro no citar. Cidados do pas protestavam contra um vdeo do YouTube que, segundo eles, era ofensivo  religio que seguiam. O ministro ordenou a um funcionrio: 'Tire esse vdeo do ar e feche o site'. No foi fcil explicar a ele que isso causaria um clamor internacional. O ministro ento pediu a derrubada do site para o embaixador americano, que disse algo como 'no h um boto para fechar sites e, mesmo que houvesse, no faramos isso'. O passo seguinte foi conversar com representantes do YouTube, que se recusaram a retirar o vdeo. O ltimo recurso foi pedir para o YouTube mediar o contato com o usurio que publicara o vdeo, a quem coube a deciso de deletar o post. H poucos anos, o ministro todo-poderoso teria autoridade numa situao dessas. O mundo virtual  uma barreira contra a censura." 

MARCO CIVIL "J me agrada que o Marco Civil (projeto de lei em votao no Congresso brasileiro) como tem sido pensado promova a abertura da rede para que todos possam ter igual acesso a ela. Vejo que  o momento de o Brasil pr isso em pauta para garantir a manuteno de princpios da web. Antes que a internet local corra o risco de cair na mo de censores.  crucial lembrar que polticos costumam se aproveitar para impor regras autoritrias sempre que qualquer pas tenta regulamentar sua web. A forma de prevenir esse perigo  estimular que os cinco agentes do mundo virtual participem da discusso, evitando que leis sejam estabelecidas de cima para baixo. Se o Marco Civil no for um reflexo dessa pluralidade, e se a sociedade brasileira no permanecer vigilante em relao  aprovao e  manuteno dessa lei, aumenta o perigo de que ela possa ser futuramente uma desculpa para construir algo como o Great Firewall. Exagerar na regulamentao ameaa o balano multilateral que faz da web algo to especial." 

ESPIONAGEM "O choque com as revelaes da espionagem on-line promovida pela NSA (a Agncia Nacional de Segurana dos Estados Unidos) contra pases como o Brasil e a Alemanha decorre da percepo de que um governo est violando conceitos bsicos da rede, como o respeito  soberania de um pas. Devem-se debater os limites da espionagem. Espies so necessrios, mas podemos deixar claro o que os pases podem ou no fazer na internet. Se isso no for estabelecido, o mundo continuar a se escandalizar a cada nova revelao sobre as aes de governos na web. O perigo  a espionagem afetar a confiana que o usurio tem em guardar dados on-line. O resultado pode ser o enfraquecimento da rede como fora de criatividade, de desenvolvimento e de livre expresso. Outra questo  que, como reao s denncias de espionagem, governos, como o brasileiro, se vem obrigados a tomar providncias. Isso tem como consequncia uma srie de medidas que nem sempre so efetivas. O governo brasileiro, por exemplo, estuda criar um e-mail estatal e obrigar empresas americanas a instalar servidores no Brasil. Qual  a eficcia dessas aes? A verdade  que ningum sabe como se defender das tcnicas de espionagem da NSA. O que no pode acontecer  o governo usar o risco da espionagem como desculpa para limitar o uso da internet pela populao. A Rssia tambm estuda a criao de um e-mail governamental. At a, tudo bem. O problema ficar srio se algum pas decidir que a populao no pode aderir a outros servidores de e-mail. Ou se obrigar empresas a submeter ao governo, sem filtros, todos os dados guardados nos servidores." 

CRIMES VIRTUAIS A Icann participou de uma investigao contra pedofilia on-line que uniu empresas, governos e foras policiais de todo o mundo. S prendemos os criminosos localizados em vrios pases porque todos os envolvidos aceitaram compartilhar informaes. Os crimes virtuais, como o trfico de drogas, a lavagem de dinheiro e a invaso de computadores, continuaro a ocorrer. A nica maneira de evit-los e combat-los  investir na cooperao entre vrios setores da sociedade." 

O PODER SOCIAL DA WEB O uso da internet como uma ferramenta para indivduos se organizarem, tanto para realizar festas quanto para protestar em praa pblica,  um dos aspectos mais gratificantes do mundo virtual. Sem a liberdade garantida pela internet, o povo de meu pas, o Egito, no poderia ter se organizado e narrado ao resto do mundo a revoluo que hoje promove contra um governo autoritrio. A internet mudou a forma como as pessoas se organizam. Foi tambm pela fora da rede que indivduos conseguiram se coordenar rapidamente para protestar nos Estados Unidos, no Brasil, na Espanha e em tantos outros lugares." 

O PAPEL DOS GOVERNOS Tirando as situaes nas quais h crime, o Estado no deve censurar a atividade da populao no ambiente virtual ou sua repercusso no mundo off-line. Ele deve ser um facilitador na relao das pessoas com o universo digital. Isso vale em todos os aspectos, incluindo, alis, o empreendedorismo. Para o Brasil se destacar nos negcios digitais, uma sugesto  o governo parar de estabelecer limites e agir na eliminao de barreiras burocrticas que impedem empreendedores de consolidar novas ideias. 


5#8 URBANISMO  A SOLUO NO QUE NO SE V
Cidades resolvem problemas e criam mecanismos de preveno de acidentes a partir da anlise de dados que  primeira vista dizem pouco.  o fenmeno do Big Data.
MARIANA BARROS

     Uma srie de acidentes com motociclistas em uma rua de Ribeiro Preto, no interior de So Paulo, intrigou o Corpo de Bombeiros. Ao passarem por um mesmo trecho, as motos derrapavam e tombavam. A causa registrada, sempre idntica, era areia na pista, embora o local fosse exaustivamente lavado depois de cada incidente. No ano passado, a partir de uma investigao, bombeiros descobriram que caminhes carregados de areia passavam pela rua e seguiam para uma transportadora a poucos metros dali. Desenhou-se ento uma rota alternativa para que os caminhes deixassem de fazer aquele percurso e evitassem novas quedas. "Constatamos a existncia de um padro e a possibilidade de alter-lo ampliando nossa rea de atuao", afirma o chefe da Casa Militar do governo paulista, Marco Aurlio Alves Pinto. Meses depois, os acidentes comearam a ser mapeados digitalmente. Quando os bombeiros notaram um novo ponto de derrapamento de motos, desta vez em Ja, a soluo surgiu pelo cruzamento dos dados disponveis. A via que concentrava os acidentes era tambm rota de caminhes de fertilizantes, causa da pista escorregadia. Os caminhes passaram a atravessar uma grelha, para que o excedente do produto casse, e a trafegar por uma estrada de terra, onde o derramamento  absorvido pelo solo. "Com o uso de dados, a gesto de desastres tornou-se gesto de riscos", afirma Alves Pinto. 
     As mudanas no interior paulista exemplificam como as cidades tm conseguido usar a seu favor o Big Data  expresso que define a abundncia de dados produzidos em nossa era. No  tarefa fcil. Embora a civilizao nunca tenha conhecido tamanha profuso de informaes, dar sentido a elas ainda  um grande desafio. As reas urbanas, que registram a maior concentrao de pegadas digitais, tambm apresentam o maior volume de problemas solucionveis a partir do processamento delas. "Material no falta, o que falta  saber us-lo", diz Antnio Carlos Dias, responsvel pela rea de Cidades Inteligentes da IBM Brasil. Segundo ele, o uso de cmeras de monitoramento cresce 20% ao ano, e a implantao de censores nas ruas disparou nos ltimos cinco anos. Solues baseadas no Big Data exigem identificar padres, analis-los e criar meios de impedir novas ocorrncias. "H um histrico de comportamento que permite certas previses, e  disso que trata o uso de Big Data nas cidades: resposta a eventos repetitivos", afirma Dias. Em parceria com a prefeitura de Porto Alegre, a IBM implantou um sistema para prever quais lmpadas pblicas esto prestes a queimar e programar a troca para antes de o problema ocorrer. Sensores identificam lotes de origem e, quando uma luz pifa, o sistema alerta sobre a probabilidade das outras de mesma origem queimarem. Com a substituio programada, a prefeitura economizou e aumentou a sensao de segurana dos moradores, que raramente deparam com ruas s escuras. 
     Dois projetos brasileiros so considerados exemplares no uso do Big Data na gesto pblica. Um  o Centro de Operaes do Rio (COR), tambm fruto de parceria com a IBM. Implantado no fim de 2010 ao custo de 14 milhes de reais, no ltimo dia 20 contribuiu para a vitria da capital fluminense no Smart City Expo de Barcelona. O local tem 400 funcionrios, integra informaes de trinta rgos pblicos e concessionrias e  equipado com mais de 900 cmeras, captando as situaes de trnsito, transporte pblico, iluminao e defesa civil em tempo real. Segundo a prefeitura, em 2011, ano seguinte  implantao, o Rio no registrou nenhuma morte por causa das chuvas, problema que doze meses antes deixara sessenta vtimas. Na esteira da iniciativa, surgem mais projetos. Informaes publicadas nas redes sociais servem de base de um programa de preveno a surtos de dengue. Ao captar  termos como "doente" e "sentindo mal" e cruzar com histricos de infestao, o programa indica os locais mais suscetveis  doena com maior antecedncia, j que o resultado dos exames laboratoriais leva de trs a sete dias para ficar pronto. Para se preparar para o rveillon, a prefeitura analisa dados obtidos na ltima virada do ano via telefonia mvel e acesso a nibus e trens. "Percebemos que 55% dos visitantes que assistiram  queima de fogos em Copacabana vieram da Baixada Fluminense", diz o secretrio da Casa Civil, Pedro Paulo Carvalho Teixeira. A informao ser a base do plano de transportes deste ano. 
     Outra ao pioneira foi liderada pelo governo de Minas Gerais, responsvel por implantar no fim de novembro o Data Viva, em parceria com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Trata-se de um banco de informaes econmicas capaz de gerar 100 milhes de visualizaes interativas sobre todos os municpios brasileiros. "Criamos condies de analisar nosso ndice de competitividade e a estratgia de desenvolvimento", diz Andr Barrence, diretor-presidente do Escritrio de Prioridades Estratgicas. Com o objetivo de diversificar as atividades do Estado, ainda majoritariamente extrativista, o projeto desmitifica o senso comum. Revela, por exemplo, que o maior exportador brasileiro de queijo no  um municpio mineiro, mas paulista  Angatuba (33,26%) , seguido pelo paranaense Rio Azul (27,17%). E que o maior importador  Taiwan (94,57%). O DataViva custou 1,2 milho de reais e levou um ano e meio para ser desenvolvido por uma equipe de sete pessoas. "Muitas aplicaes do Big Data demandam apenas peneirar bem o que se tem para encontrar diamantes", diz Barrence. 
 mais do que justificada a febre em torno do Waze, aplicativo adquirido pelo Google neste ano por 1,3 bilho de dlares. O Waze  uma rede social que  combina dados do GPS e informaes dos usurios sobre as condies do trnsito. S no Brasil o sistema tem 5,5 milhes de adeptos. Um de seus criadores, o israelense Uri Levine, investe agora no Moovit, sistema semelhante, mas com informaes sobre o transporte pblico. O Moovit se prope a indicar como se deslocar melhor de nibus, trens e metr e permitir aos usurios classificar as linhas pela lotao e limpeza dos veculos. Depois de fechar acordos com as prefeituras, no ms passado, a ferramenta passou a exibir a localizao dos nibus em tempo real, no Rio de Janeiro e em So Paulo. 
     Quando o assunto  segurana, So Paulo se esfora para trilhar caminho semelhante ao de Nova York, que em 2005 criou o Real Time Crime Center (RTCC), programa que cruza fichas criminais e registros de ocorrncias com um mapa para localizar suspeitos e deslocar policiais com maior rapidez e preciso. A Secretaria de Segurana Pblica prev implantar at o ano que vem 1000 cmeras com sensores que emitem alertas em caso de atitudes suspeitas. Neste ms, a pasta instalou em todo o estado um software que cruza registros criminais e identifica pontos de delitos. A tarefa se tornar mais fcil a partir de fevereiro, quando comearo a ser emitidos os primeiros RGs eletrnicos, baseados em um sistema biomtrico de reconhecimento da impresso digital. 
     O caso do caminho de Ribeiro Preto citado no incio desta reportagem inspirou uma srie de medidas para reduzir acidentes de trnsito em pelo menos setenta ruas do interior paulista. A instalao de semforos, guard-rails, radares e placas de sinalizao levou  diminuio em 23% das ocorrncias com vtimas do primeiro semestre do ano passado para o deste ano. Em Franca, protees laterais na Avenida Hlio Palermo fizeram baixar de 24 para onze os acidentes com moto entre o segundo semestre de 2012 e o deste ano. Na Avenida Maria Antnia Camargo de Oliveira, em Araraquara, a lombada eletrnica e a nova sinalizao reduziram de vinte para trs os casos de acidentados. Estima-se que quase 3000 acidentes tenham sido evitados em So Paulo desde o incio do programa. 
     Para ampliar os esforos de preveno, um banco de dados disponvel para todos os municpios paulistas pretende integrar vrias secretarias em cada soluo. At agora, 438 das 645 cidades paulistas aderiram ao sistema. Os responsveis pelo projeto comemoram um acordo pelo qual informaes do governo federal sero integradas a partir do ano que vem. "Alm de ampliarmos a base, passamos por cima de disputas partidrias, j que alguns municpios no queriam fornecer dados por questes polticas", diz o secretrio Alves Pinto. 
     Nas cidades de Tarabai e Paraguau Paulista, prximo  divisa com o Paran, o registro sazonal de granizos e de necessidade de troca de telhas fez com que a Defesa Civil firmasse uma parceria com a USP. Pesquisadores desenvolvem modelos de telhado mais resistentes e propem mudanas em seu ngulo. As aes envolvem ainda monitoramento do nvel dos rios, pluvimetros automticos e alertas via SMS. Com a mesma preocupao, a Telefnica Vivo pretende implantar at o fim do ano 1400 pluvimetros em reas de risco de seis estados para avisar sobre inundaes e deslizamentos. Os instrumentos, instalados nas torres de celular, conectam-se  rede de telefonia mvel e contribuem para o monitoramento do Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres, do Ministrio da Integrao Nacional. 
     Apesar de toda a sua fora, a tecnologia ainda no consegue domar os humores da natureza. Em setembro, alertas da Defesa Civil sobre a aproximao de um tornado em Taquarituba (SP) no impediram um desastre. Sem luz nem telefone, os 24.000 habitantes ficaram vulnerveis aos fortes ventos, que deixaram 63 feridos e dois mortos. Agora, uma equipe da Defesa Civil se dedica a reunir e cruzar milhares de dados meteorolgicos histricos na tentativa de entender o que levou  formao de um tornado naquela regio. O Big Data, apesar do nome ainda em ingls, j se tornou familiar no Brasil. 


5#9 MEMRIA  MANDELA  O HERI INCOMUM
O lder sul-africano, morto aos 95 anos, resistiu  tentao de se perpetuar no poder e deixou um legado poltico conciliador. Foi o ltimo grande homem do sculo XX.
TATIANA GIANINI

     O momento pico durou dois minutos, mas vai ressoar pela eternidade. Pouco antes da final da Copa do Mundo em Johannesburgo, na frica do Sul, em julho de 2010, Nelson Mandela desfilou no estdio Soccer City sentado em um carrinho de golfe. Vestindo um gorro de pele escuro e luvas, ele acenava para 85.000 torcedores em delrio. Foi reverenciado ao som das vuvuzelas e a gritos de "Madiba", o apelido que remete ao nome de seu cl. Aquele foi o ltimo evento pblico do qual participou, j com a sade fragilizada pela idade. Desde que contraiu tuberculose na priso, Mandela sofria com a deteriorao dos seus pulmes. Ele adoecera no regime de trabalhos forados a que era submetido nas pedreiras da Ilha Robben  onde funcionava o primeiro dos trs presdios nos quais permaneceu encarcerado durante 27 anos por tentar derrubar o apartheid, o governo racista que prevaleceu na frica do Sul entre 1948 e 1994. Na quinta-feira passada, dia 5, aos 95 anos, ele no resistiu a uma infeco pulmonar e morreu em sua casa, em Johannesburgo, onde era mantido vivo com a ajuda de aparelhos havia trs meses. Seu legado histrico e seus ideais no precisaro de nenhum incentivo para perdurar no tempo. Mesmo antes de se retirar da vida pblica, Mandela personificou a identidade da nao, mas, em vez de assumir-se como um mito, expunha os prprios erros. No era pacifista, mas buscava a paz. Abominava o regime de segregao, mas no guardou rancor de seus representantes. Ascendeu  Presidncia nos braos da maioria, mas no se aproveitou dela para se eternizar no poder. Foi assim, desafiando a lgica dos instintos polticos, que ele se tornou o ltimo heri de inspirao global do sculo XX. Um heri incomum. 
     Com o humor autodepreciativo que lhe era peculiar, Mandela costumava contar um episdio real de sua vida que ajuda a explicar como um homem que passara quase trs dcadas encarcerado conseguiu, ainda na priso, assumir o protagonismo no desmonte de um regime opressor. Em 1994, quatro anos depois de ser libertado e pouco antes de ser eleito presidente da frica do Sul, Mandela estava em uma viagem particular s Bahamas quando foi abordado por um casal de turistas. O homem lhe perguntou: "O senhor no  Nelson Mandela?". "No, sempre me confundem com esse sujeito", respondeu o prprio. A mulher no se conformou e soltou esta: "Por que o senhor  famoso, mesmo?". No auge de sua fama. Mandela atraa admirao mundial, mas poucos fora da frica do Sul sabiam exatamente quem ele era e o que havia feito. No mximo, tinha-se uma noo de que representava a luta de um povo por justia. Essa percepo vaga bastou para que, nos anos 80, milhes de pessoas aderissem a uma campanha internacional para libert-lo da priso, que incluiu de shows de rock a presses diplomticas. No se sabia sequer como ele era, pois desde 1964 no se divulgavam novas fotos do prisioneiro-celebridade, que no recebeu indulto temporrio nem para ir ao enterro de um de seus filhos e de sua me. 
     As expectativas sobre o papel que viria a desempenhar quando fosse libertado eram to altas que, para os mais cticos, s podiam resultar em decepo. Isso no ocorreu. Mandela era um revolucionrio quando entrou na priso, e saiu de l um estadista disposto a negociar com o inimigo a construo de um pas mais justo. O seu carisma cresceu. Com seu 1,83 metro de altura, 15 centmetros a mais do que a mdia dos homens sul-africanos, ele se destacava fisicamente, e tambm por ser atencioso com todos, brancos ou negros, e por outros gestos simples mas genunos. Na Presidncia, por exemplo, Mandela fazia questo de arrumar a prpria cama. O mais importante, porm, foi ter sido fiel  noo, presente em seus escritos desde cedo, de que a cor de pele  um pssimo parmetro para polticas de Estado. Considerando quanto a maioria negra e ele prprio sofreram com a segregao oficial, teria sido fcil cair na tentao de inverter o sinal da tirania. 
     O apartheid comeou a ser instalado na frica do Sul em 1948, pelo Partido Nacional. "Muitos dos seus lderes foram influenciados pela ideologia nazista", diz o historiador americano Thomas McClendon, da Universidade Southwestern, no Texas. A ideia de superioridade branca estava intrinsecamente relacionada  histria dos africneres, descendentes dos holandeses que chegaram ao pas no sculo XVII e lutaram pela sua independncia combatendo os ingleses. Entre eles se havia disseminado a crena de que eram os escolhidos por Deus e, portanto, superiores a outras raas". Ao todo, o Partido Nacional criou 148 leis para restringir os direitos dos negros. A proibio de casamentos inter-raciais entrou em vigor em 1949. Em 1953, foi instituda a segregao em lugares e servios pblicos. Os negros, que representavam 80% da populao, revoltaram-se contra as imposies e foram reprimidos. Em 21 de marco de 1960, a polcia sul-africana abriu fogo contra um protesto pacfico na cidade de Sharpeville, deixando 69 mortos, entre os quais mais de quarenta mulheres e crianas, e 180 feridos. O episdio convenceu vrios lderes negros  entre eles Mandela, ento um advogado que militava no Congresso Nacional Africano (CNA)  de que a resistncia civil no levaria o governo a negociar. 
     Mandela e outros concluram que a soluo s poderia ser alcanada sob a coero dos fuzis. Mesmo antes disso, ele demonstrava admirao por revolucionrios socialistas histricos, mas apenas por representarem a luta por uma transformao da sociedade, no pelo desejo de construir um Estado proletrio. Como o prprio Mandela explicou anos depois, o que ele almejava mesmo para o seu pas era uma "democracia burguesa". A aproximao do CNA com os comunistas no incio da dcada de 60, portanto, era meramente estratgica. Em 1962, Mandela viajou a Adis-Abeba, na Etipia, para obter treinamento de guerrilha para o Umkhonto we Sizwe ("Lana da Nao"), ou MK, o brao militar do CNA que ele prprio idealizou e presidia. Entre 1961 e 1963, o MK foi responsvel por 134 aes violentas. Em 1983, quando Mandela completava 21 anos na cadeia, os membros de sua milcia detonaram um carro com 40 quilos de explosivos em frente  sede administrativa da Fora Area Sul-Africana, na Church Street, em Pretria. Dezenove pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas. At a libertao de Mandela, em 1990, 63 pessoas morreram pelas mos do MK, na maioria civis. Mandela nunca se arrependeu de ter apoiado a luta armada, e mesmo aps sua libertao s se comprometeu a interromp-la quando a realizao de eleies democrticas estava garantida. Para ele, no fosse isso o governo nunca se veria forado a reconhecer o direito poltico dos negros. O fato  que o apartheid desmoronou mais por fatores externos e econmicos do que pela ao direta de grupos armados. A presso internacional pelo fim da segregao era intensa, com as grandes potncias aprovando sanes comerciais contra a frica do Sul. A derrocada de tiranias contaminava o esprito da poca  o Muro de Berlim cara meses antes da libertao de Mandela. O investimento estrangeiro despencou e os empresrios locais comearam a perceber que a situao do pas se tornara invivel. O governo passou a temer a reao nacional e internacional caso Mandela morresse no crcere e decidiu transferi-lo para presdios cada vez menos insalubres. No ltimo deles, o colcho em que dormia era mais confortvel do que o de seus filhos e de sua mulher, Winnie, em sua casa no bairro de Soweto. O desmonte institucional do apartheid coube ao presidente Frederik Willem de Klerk, um poltico do Partido Nacional que, nos seus tempos de ministro da Educao, havia defendido a existncia de universidades exclusivas para brancos. De uma tacada e sem consultar o prprio partido, em um pronunciamento na TV, De Klerk tirou o CNA e outros grupos polticos da clandestinidade, aboliu leis racistas e anunciou a libertao de Mandela. Nos dois anos que se seguiram, De Klerk e Mandela comandaram tensas negociaes para a formulao de uma nova Constituio e para a convocao de eleies, ao mesmo tempo que tentavam conter os confrontos entre diferentes faces da populao negra e a ao de radicais brancos. 
     Eleito presidente em 1994, Mandela teve como seu maior feito a consolidao da recm-conquistada democracia, afastando o sentimento de revanche entre brancos e negros, quando a regra na frica era que os heris nacionais de ontem se tornariam os tiranos de amanh. Em 1995, seu governo estabeleceu a Comisso de Verdade e Reconciliao, para analisar as violaes de direitos humanos cometidas durante o apartheid. Ao contrrio de outras comisses que dizem se inspirar nela, como a brasileira Comisso Nacional da Verdade, a sul-africana no serviu para apontar os crimes cometidos por apenas um lado. Foram esclarecidos desde episdios de violncia cometidos pelos agentes do apartheid at a atuao da mulher do presidente, Winnie, no perodo em que Mandela esteve preso. Os integrantes do Clube de Futebol Mandela, fundado por ela, cometeram diversos assaltos, sequestros e assassinatos entre agosto de 1988 e fevereiro de 1989. Na comisso, as vtimas e os algozes de ambos os lados deram seus depoimentos em pblico, s vezes na televiso. Alguns se desfaziam em prantos e deixavam todos os demais em lgrimas. O objetivo era expor a dor causada e buscar uma reparao, sem revanchismos. A capacidade de virar a pgina da histria e de mirar no futuro, com os ps firmemente fincados na realidade presente,  um dos principais legados de Mandela. 
     O pai da democracia sul-africana falhou em transmitir plenamente seus ideais aos herdeiros polticos e aos familiares mais prximos. O seu partido, o CNA, est no quinto mandato presidencial consecutivo, apesar da alta criminalidade e dos escndalos de corrupo, e se esmera por consolidar sua hegemonia. Nos ltimos anos, os filhos e netos de Mandela se dedicaram mais a explorar comercialmente o seu nome e a brigar pela administrao dos seus bens do que a propagar os seus ideais. O neto mais velho, Mandla, chegou a ponto de transferir de Qunu para sua aldeia, Mvezo, os corpos de trs filhos do av, na esperana de que ele decidisse ser enterrado l. Por ordem judicial, os restos mortais foram devolvidos aos seus tmulos originais, e  em Qunu, onde passou a maior parte da infncia, que Mandela tambm ter o seu jazigo  como, alis, sempre foi o seu desejo. 

"A lei me transformou em criminoso, no pelo que fiz, mas pela causa que defendia."
1962 Em depoimento aps ser condenado por incitar uma greve 

"Eu lutei contra a dominao branca e lutei contra a dominao negra. Eu valorizo o ideal de uma sociedade livre e democrtica na qual todas as pessoas vivem juntas em harmonia e com as mesmas oportunidades.  um ideal pelo qual eu espero viver para ver realizado. Mas, se for necessrio,  um ideal pelo qual eu estou pronto para morrer." 
1964 Diante de um tribunal em Pretria, na frica do Sul 

"No nego, contudo, que planejei uma sabotagem." 
1964 Durante o mesmo julgamento, em que foi condenado  priso perptua 

"Estamos lutando por uma sociedade em que as pessoas deixem de pensar em termos de cor." 
1993 Em entrevista ao jornalista Richard Stengel 

"Nossa tarefa como governo  garantir a existncia de um ambiente que liberte as habilidades criativas dos nossos povos para que eles mesmos criem riqueza e promovam o desenvolvimento." 
1995 Em discurso 

"Precisamos lutar continuamente para derrotar esse trao primitivo de glorificao das armas." 
1998 Em discurso na Assembleia das Naes Unidas, em Nova York 

"Com frequncia, revolucionrios do passado sucumbiram  ganncia e acabaram sendo dominados pela inclinao de desviar recursos pblicos para o enriquecimento pessoal. Ao acumular vasta riqueza pessoal e ao trair os objetivos que os tornaram famosos, eles virtualmente desertaram do povo e se juntaram aos antigos opressores, que enriqueceram impiedosamente roubando dos mais pobres dos pobres." 
1998 Em rascunho para a continuao da autobiografia 

O AMIGO BRASILEIRO
A Presidncia de Mandela coincidiu com o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, e os dois se encontraram diversas vezes. Em 2007, o sul-africano convidou o colega brasileiro a integrar o grupo de estadistas The Elders (Os Mais Velhos, em ingls). FHC falou sobre sua amizade com Mandela 

Qual  o legado de Mandela? 
A ideia de que somos todos iguais, independentemente de raa. Nesse ponto, ele pode ser comparado a Martin Luther King. Com a diferena de que na frica essa era uma luta mais difcil, pois havia uma minoria dominando a maioria. Por isso,  ainda mais notvel a generosidade de Mandela. Naqueles dias em que o apartheid j dava mostras de enfraquecimento, Mandela teve a grandeza de perceber que era imperativo conseguir uma reconciliao entre brancos e negros. Caso contrrio, o destino seria trgico. Era o nico entre os seus companheiros com fora moral para dizer: "Em vez de nos matarmos, vamos negociar". 

Como ele era pessoalmente? 
Muito simples de se relacionar, e muito alegre. Certa vez, quando fui  frica como presidente, ele me levou a um banquete. De repente, entrou um grupo cantando msicas locais. Ele me pegou pelo brao, disse "vamos l", e foi danando de mesa em mesa para me apresentar aos outros. Mandela quebrava o protocolo. Ele era um prncipe. No de uma nobreza hereditria, mas de alma. Muito elegante. Esse  o tipo de coisa que no tem a ver com a roupa que se usa, mas sim com a aura que se transmite. O povo entrava em xtase s com a presena dele. 

Qual  a importncia de ele no ter buscado um segundo mandato? 
Mandela poderia ter sido reeleito com facilidade, mas sabia que governar no era sua vocao. Preferiu ser um smbolo, tanto  que deixou o vice tocando a administrao e no se envolveu com os problemas cotidianos. Seu trabalho foi divulgar uma democracia em que negros e brancos convivessem pacificamente. Foi um homem de pregao, muito mais do que um gestor.

COM REPORTAGEM DE TMARA FISCH


5#10 GENTE
JULIANA LINHARES. Com Marlia Leoni e Thas Botelho

OUTRAS JOIAS DA COROA
Dizem que os homens procuram a imagem da me quando escolhem uma mulher para se casar. No caso do prncipe William da Inglaterra, a imagem pode ter sido a da av. Fotos inditas, que sero leiloadas nesta quarta-feira, 11, mostram a rainha EUZABETH, aos 17 anos, fazendo peas de teatro em famlia, uma inocente diverso de tempos passados. Ela ainda era a princesa herdeira e contracenava com a irm, Margaret. Numa das montagens, aparece num papel masculino, o de Aladim, da o shortinho mostrando as pernas bem torneadas, um ponto em comum com KATE. As semelhanas podem ser conferidas na foto da semana passada, com Kate num elegante Roland Mouret branco e colar, da mais pura bijuteria, que custou 77 reais. 

ALGO SOBRENATURAL
GILLIAN ANDERSON, 45,  uma especialista em loiras geladas. Como a inesquecvel agente Scully, de Arquivo X, e agora no papel da delegada da srie The Fall, parecidssima com uma antiga personagem de Helen Mirren, a atriz americana radicada em Londres encara inimigos terrestres ou extraterrestres com o mesmo olhar petrificante. Perfeito, portanto, para fazer par com uma sinuosa enguia-do-mar que ela enrolou sobre o corpo nu para participar de uma campanha contra a pesca predatria. Antes de se tornar atriz, Gillian pensou em fazer biologia marinha. Livraram-se as enguias da concorrncia. 

ACABOU O LUTO
Sair de uma doena preocupante mais magra e mais alinhada foi um feito da presidente argentina CRISTINA KIRCHNER, 60. No comeo de outubro, ela foi operada para drenar um hematoma perto do crebro e passou um ms de licena. Na volta, foi aliviando o luto fechado que vestia desde a morte do marido. Nstor Kirchner, h trs anos. Culminou o processo na semana passada usando um vestido quase branco. Os cabelos tambm esto mais curtos e a maquiagem um tantinho menos barroca. Segurou o sorriso at diante de outra novidade, esta ruim: uma onda de saques em Crdoba durante greve da polcia. Despreocupados, saqueadores postaram fotos dos produtos roubados na internet. 

ALEGRE COMO UM PASSARINHO
Todo mundo fala da voz, da cinturinha o dos vestidos da cantora PAULA FERNANDES. Tem at brincadeiras na internet comparando os vestidos a bolos de noiva. "Tafet, organza, cores e brilhos. Falo que e muita coisa, mas fao o que o cliente pede", suspira a estilista Patrcia Nascimento, que j fez mais de 100 modelos para a cantora, a preos que vo de 5000 a 30.000 reais. O que Paula, o segundo nome mais buscado por brasileiros num dos maiores sites de navegao do mundo, usara quando subir ao altar? Segurem a imaginao. Paula namora um dentista de Braslia, sem falar em casamento. Ela adora bichos e abriga marrecos, galinhas-dangola e 400 pssaros em casa. 

MAQUIAGEM PERFEITA
Ela tem cabea para negcios, mo firme nas mais elaboradas maquiagens e corpo... bem, confiram abaixo. Pioneira no universo dos blogs de beleza, JULIA PETIT alcana hoje 4 milhes de visualizaes por ms e faturamento anual de 2 milhes de reais. Por causa da experincia acumulada, ela virou professora de um curso de marketing digital. "Ensino como fazer propaganda na internet", diz. Seu quadro sobre maquiagem, apresentado em um programa dominical, fica em segundo lugar no Ibope, s atrs do futebol. Mia tem 41 anos, uma filha de 19 e barriga chapada. "Para fazer essa foto, durante trs semanas, fui todo dia  academia." 


5#11 IDIAS  ONDE COPIAR  BONITO
O gosto chins pelas rplicas vem desde o sculo III a.C. e aprofundou-se com o isolamento e a falta de liberdade de arquitetos e artistas durante o perodo maosta.

     O crescimento econmico da China nas ltimas dcadas no foi acompanhado por um alvorecer da criatividade arquitetnica. Nos subrbios das cidades e em condomnios residenciais, as principais construes so quase sempre rplicas do Ocidente. H pelo menos duas rplicas da Torre Eiffel em grande escala. Em Hangzhou, onde est uma delas, at a Avenida Champs-lyses parisiense foi copiada. Na provncia de Guangdong, foi erguido um vilarejo austraco, com lago e pedalinhos como no original. A valorizao da imitao tem razes culturais e polticas. O pioneiro foi o imperador Qin Shi Huangdi. No sculo III a.C., ele ordenou a construo de reprodues de palcios de reinos que seu exrcito havia conquistado. "Dessa forma, o monarca demonstrou o seu poderio sobre os rivais. Depois disso, as cpias passaram a ser incentivadas", disse a VEJA a americana Bianca Bosker, especialista em estudos asiticos pela Universidade Princeton e autora do livro Cpias Originais  Mimetismo Arquitetnico na China Contempornea. A tradio iniciada por Qin Shi foi depois transferida para as artes em geral. Por sculos, pintores e calgrafos procuraram imitar fielmente as obras dos profissionais mais antigos. Quanto mais suas obras ficavam parecidas com a dos seus mestres, melhor. Era uma comprovao de que o novato tinha o domnio completo da tcnica. 
     Na primeira metade do sculo XX, quando os artistas do Ocidente viveram um dos perodos mais frutferos e inovadores, a China ainda era um pas essencialmente agrrio. Nem havia sado dessa realidade, que em nada favorecia o talento individual, quando mergulhou, em 1949, na ditadura comunista, que proibiu toda manifestao artstica ou poltica fora dos cartazes da propaganda oficial. Uma muralha foi erguida para impedir qualquer invaso cultural estrangeira. A abertura, cujo incio se deu em 1978, teve um efeito parcial. "Depois de viver dcadas fechada dentro do comunismo e da pobreza, a populao chinesa passou a ver a arquitetura estrangeira como algo novo e atraente, assim como os carros e outros bens de consumo de fora", diz o designer holands Harry den Hartog, professor de planejamento urbano da Universidade Tongji, em Xangai. Tudo o que era de fora comeou a ser valorizado como parte do futuro. Em contrapartida, o passado chins, agrrio e comunista, virou sinnimo de declnio para a classe mdia, com maior poder de compra. O governo chins tambm nunca deu folga  liberdade de expresso. As raras mentes que no seguem as regras do partido so frequentemente presas e interrogadas. Com isso, no h muitos arquitetos originais prontos para executar projetos livremente. Para os que esto no ramo, portanto, copiar  a melhor sada. 
TATIANA GIANINI


5#12 EDUCAO  EST FALTANDO FLEGO
O Brasil aparece entre os ltimos no novo ranking do ensino da OCDE e no d sinais de reao para virar o jogo e conseguir um lugar no pdio global.
HELENA BORGES

     Se quiser saber como o Brasil est situado na competio global, consulte o ranking mundial do PIB, uma medida da riqueza no tempo presente. Mas, se quiser entender as chances de o pas ingressar para valer na era do conhecimento e da inovao, o melhor ser voltar o olhar para o mais abrangente termmetro da educao, o Pisa, uma prova aplicada pela OCDE (a organizao das naes mais desenvolvidas) que desde 2000 compara o desempenho escolar de jovens de dezenas de pases em trs reas-chave: leitura, matemtica e cincias. O ltimo levantamento foi divulgado na semana passada e fez acender um sinal de alerta sobre o Brasil, que rasteja na 57 posio entre 65 pases. Na aferio anterior, estava em 53. Alguns figures em Braslia chegaram a celebrar o resultado ao ver a situao sob outro prisma. Tomando-se como base a dcada, os brasileiros foram os que mais evoluram em matemtica. Dominado pela euforia, o ministro Aloizio Mercadante disparou telefonemas para grandes cabeas da academia: queria comemorar. Compreensvel. O problema  que no durssimo tabuleiro global o pas ficou onde sempre esteve  ladeado pelos piores. E no s isso: o Pisa mostrou que o Brasil perdeu flego nessa maratona. Desde 2009 estamos marcando passo no mesmo sofrvel patamar. 
     De todos os dados que o levantamento da OCDE trouxe  luz, talvez o mais esclarecedor seja aquele que se fixa nos dois extremos da sala de aula  o dos timos e o dos pssimos alunos. Nesse medidor, a China causa inveja at mesmo a pases que tradicionalmente vo bem na educao. Em matemtica, a provncia de Xangai, campe pela segunda vez consecutiva no ranking mundial, conseguiu emplacar na turma de desempenho extraordinrio nada menos do que 55% dos estudantes que fizeram a prova. E o Brasil? Bem, o Brasil alou apenas 0,8% a esse seleto grupo de talentos. A maior parcela dos brasileiros (67%) figura em rol bem menos desejvel: o dos alunos que, aos olhos da OCDE, no sabem o bsico do bsico. S por curiosidade,  dezessete vezes o contingente de chineses que esto na rabeira. 
     A traduo disso tudo para a realidade escolar  de espantar at mesmo aqueles que tm mais pendor para o otimismo. A maioria chega aos 15 anos  idade em que o Pisa  aplicado  tropeando em contas simples de diviso e multiplicao, incapaz de interpretar textos que no digam respeito a seu dia a dia e com baixa compreenso sobre os fenmenos naturais. As deficincias elementares reveladas pelos brasileiros na prova internacional vm reforar, com boa riqueza de detalhes, o que os prprios exames do MEC mostram h anos. Diz a especialista Maria Helena Guimares, que analisa os dados do Pisa desde a primeira edio: "Esse conjunto refora a necessidade de o Brasil comear a fazer de uma vez por todas a lio de casa, ainda que com dcadas de atraso em relao aos outros; a paralisia tem um preo alto quando a disputa  global, e isso ficou bem claro no atual resultado". 
     Olhar a experincia de pases que ocupam as primeiras colocaes pode ser didtico para o Brasil, pesando-se, evidentemente, as diferenas culturais. A lista da OCDE  encabeada por seis asiticos (Xangai, Singapura, Hong Kong, Coreia do Sul, Japo e Taiwan, nessa ordem). Chama ateno, mas no chega a surpreender. So todas sociedades que carregam no DNA mais do que a valorizao pelos estudos  elas nutrem pelo tema uma verdadeira obsesso, que comea em casa. Sua frmula  muito mais a do trabalho rduo e disciplinado do que a da imaginao. Um ponto essencial ajuda a entender sua supremacia: os talentos da docncia so, nesses pases e provncias chinesas, reverenciados e cultivados por seu protagonismo. Isso no significa apenas ganhar bons salrios  o que acontece com a maioria , mas ter no horizonte uma carreira pautada pelo mrito, este um pilar inegocivel. A cobrana sobre os mestres  alta, mas os bons vo longe. "Esses pases esto colhendo os resultados de um investimento macio na figura central para um bom ensino, o professor", avalia Priscila Cruz, diretora executiva da ONG Todos pela Educao. 
     O Pisa tambm ajuda a desfazer algo que  tratado com profundo determinismo em vrios crculos da educao: a ideia de que s com muito dinheiro  possvel empreender grandes mudanas na sala de aula. Macau, por exemplo, escalou sete posies no ranking mundial  foi do 17 ao dcimo lugar  reservando ao ensino 2,6% de seu PIB. Os Estados Unidos, por sua vez, so o campeo mundial de gastos, mas perderam posies, estacionando na poro mediana da lista: esto na 29 posio; em 2009 estavam em 26. J a Malsia (a 31 economia do mundo) destinou 12,5 bilhes de dlares  educao em 2010  cerca de metade do que o Brasil (a stima economia do planeta) canalizou para suas escolas. S que a desproporo em favor dos brasileiros no se refletiu em vantagem acadmica: os malaios esto, sim, duas colocaes  nossa frente. A OCDE at recomenda que o Brasil invista mais recursos na rea, j que, em valores absolutos, as cifras ainda esto muito aqum daquelas dos pases mais desenvolvidos. Mas deixa bem claro o recado:  preciso fazer melhor uso das verbas j existentes. 
     Um captulo das anlises dedicado ao Brasil chama ateno para as altas taxas de repetncia no pas: um tero dos estudantes avaliados contou ter feito pelo menos duas vezes a mesma srie. Muitos passaram pelo ensino fundamental no nos nove anos esperados, mas em doze. O alerta da OCDE  em relao a essa prtica, que virou rotina em muitas escolas brasileiras. Ressalta o relatrio: " importante reduzir o uso da repetncia e encontrar formas mais efetivas de fazer com que os estudantes melhorem sua performance e de estabelecer expectativas mais altas entre eles". Uma ideia amplamente aceita  prover reforo aos que forem ficando para trs, antes que as deficincias se cristalizem. O abismo entre o rendimento de escolas pblicas e particulares foi suavizado um pouco, mas continua destoando da mdia mundial, assim como as disparidades regionais. Enquanto o Sul e o Sudeste se descolam 30 pontos da mdia nacional, nove estados do Norte e do Nordeste figuram, isso mesmo, na lista dos dez piores lugares do planeta no ensino de matemtica. 
     A anos-luz de problemas ainda to bsicos, alguns pases j comeam a fazer uso macio e inteligente da tecnologia na sala de aula. Os asiticos (de novo eles) adotam o ensino em rede e acionam o computador para fornecer respostas instantneas ao aluno no momento exato em que ele tropea em um exerccio, de modo a evitar que as dvidas se acumulem e se tornem grandes gargalos de aprendizado. A tecnologia no pode mais ficar de fora da sala de aula, lembra a OCDE; os ofcios na era do conhecimento demandam e demandaro cada vez mais o uso eficiente dela. Mas para os brasileiros sonharem em ombrear um dia com os melhores do mundo ser preciso, antes de tudo, uma radical mudana de filosofia. A duas semanas da prova, a OCDE decidiu medir a taxa de presena na sala de aula, e entre os mais faltosos estavam... os brasileiros. Que aprendam a lio com o Pisa: ele mostra que s com esforo mximo e muita disciplina d para disparar nessa corrida. 

A POSIO NO RANKING MUNDIAL E A PONTUAO DO PISA
BRASIL 57 (posio no ranking anterior: 53). 402 pontos
MALSIA 55. 413 pontos
ESTADOS UNIDOS 29. 492 pontos
FINLNDIA 7. 529,3 pontos
HONG KONG (CHINA) 3. 553,7 pontos
SINGAPURA 2. 555,3 pontos
XANGAI (CHINA) 1. 587,7 pontos

PARADOS NO TEMPO
O Brasil ficou no mesmssimo patamar em que estava no ltimo levantamento do Pisa, h quatro anos. Abaixo, a pontuao dos estudantes.
Leitura (piorou)
2009: 412 pontos
2012: 410 pontos

Cincias (estagnou)
2009: 405 pontos
2012: 405 pontos

Matemtica (melhorou)
2009: 386 pontos
2012: 391 pontos

ELES E NS
A OCDE mediu a concentrao de alunos com desempenho extraordinrio no Pisa e a dos estudantes que no sabem nem o bsico. Abaixo, a comparao entre chineses e brasileiros na prova de matemtica.

Proporo de alunos no topo
Xangai (China) 55,4%
Brasil 0,8%

Proporo de alunos que no sabem o mnimo
Xangai (China) 3,8%
Brasil 67,1%


